Seleção

Ronaldo em seis Copas e Portugal de volta ao eixo: o que mudou no jogo depois do tropeço com o Congo

Dois gols do capitão, goleada por 5 a 0 e números que mostram uma seleção diferente do empate na estreia

Cristiano Ronaldo marcou duas vezes, entrou para a história do futebol e Portugal atropelou o Uzbequistão por 5 a 0 nesta terça-feira, em Houston. Mas o resultado final não conta a história completa — vale a pena entender o que mudou na seleção portuguesa do jogo anterior para este.

O ponto de partida é o empate sem gols com o Congo na estreia do Grupo K. Portugal foi ao campo, não criou, não finalizou com perigo e voltou para o vestiário com um 0 a 0 que levantou questão óbvia: Ronaldo, aos 41 anos, ainda tinha o que oferecer numa Copa do Mundo? A resposta veio em cinco minutos de jogo, quando ele recebeu de João Cancelo e abriu o placar. E voltou aos 38, numa jogada construída por Bruno Fernandes, para fechar o primeiro tempo em 3 a 0 — Nuno Mendes havia ampliado numa falta cobrada aos 16 minutos.

A goleada final foi construída com dois gols a mais no segundo tempo: um contra de Khusanov aos 59 minutos (escanteio de Bruno Fernandes) e Rafael Leão fechando a conta aos 86, assistência de Nélson Semedo. Cinco gols, sete jogadores envolvidos nas jogadas, zero sofridos.

O que os números dizem é revelador: 556 passes certos de Portugal contra 215 do Uzbequistão, 8 finalizações no alvo contra 2. Na prática, isso significa que a seleção portuguesa controlou o ritmo e o espaço do jogo com uma clareza que não apareceu na estreia. Quando uma equipe tem mais do que o dobro de passes certos e quadruplicou as finalizações certas, ela não venceu por sorte — venceu porque dominou os mecanismos do jogo.

O diagnóstico tático mais óbvio aqui é de onde vieram as assistências. Os dois gols de Ronaldo saíram de jogadas que passaram pelos lados do campo — Cancelo pelo direito, Bruno Fernandes pelo meio. O Uzbequistão, sem recursos para pressionar a saída de bola portuguesa, cedeu o corredor lateral e pagou o preço. Nuno Mendes, pelo lado esquerdo, ainda capitalizou numa bola parada. É um padrão de quem joga com o campo aberto, com circulação de bola e aproveitamento das entradas pelos flancos.

O recorde de Ronaldo é o ponto mais simbólico da noite: primeiro jogador a marcar em seis Copas do Mundo diferentes — uma marca que vai além do simples acúmulo de edições. Para fazer gol em seis Mundiais, é preciso estar ativo e decisivo durante mais de vinte anos em nível de seleção. Isso, papo reto, é algo que a análise técnica não consegue explicar completamente. O que dá pra dizer é que, no campo, ele continua se posicionando bem na área e aproveitando as oportunidades que aparecem — os dois gols desta noite foram de finalização dentro da área, sem dificuldade excessiva na criação própria, mas bem resolvidos.

A seleção do técnico Roberto Martínez sobe para a liderança parcial do Grupo K com 4 pontos e saldo de +5. O Uzbequistão segue na lanterna sem pontuar. A próxima parada é a Colômbia — adversário de nível diferente, com mais capacidade de pressão e transição. Será o teste real para saber se o que Portugal mostrou hoje foi ajuste de plano ou só diferença de nível entre os adversários.

Para Ronaldo, que busca o título mundial que nunca veio antes de encerrar o ciclo na seleção, a atuação devolve a confiança. Mas uma goleada sobre o Uzbequistão ainda não é prova de que Portugal está pronto para ir longe. O que é possível afirmar, com base no que aconteceu em Houston: o time sabe jogar quando encontra espaço e circula a bola. A Copa vai dizer se vai encontrar espaço contra quem importa.

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